Deixa-me olhar
este vão,
precipício,
corpo.
Deixa lançar-me
ao vão,
fictício,
bravio porto.
Deixa-me pegar
à mão,
hospício,
amor louco.
Deixa-me dançar
ao chão,
castisso,
mundo pouco.
Deixa pulsar...
Coração,
sem auspício,
mudo e mouco.
O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente. /E os que lêem o que escreve,/Na dor lida sentem bem, /Não as duas que ele teve,/ Mas só a que eles não têm./E assim nas calhas de roda/Gira, a entreter a razão,/Esse comboio de corda/Que se chama coração. Ricardo Reis
| Na ilusão impávida, impoluta, minha vida agranda, avulta. Toda a luz do mundo filtra em janela da alma, bate, luta. Tenta atenta crer num porvir, senta, assenta-se num barco por ir. Volta se entorna, escuta à porta, espia o futuro, perfura o muro... [será que irá sorrir?] Pensa tensa em qual melhor ação. [passo em falso leva a dissolução]. Dizem-lhe: "Louca!!! Vives a beijar-te a própria boca, neste teu mundo de castelo e ilusão". Mas não vivo em vão... divirto-me enquanto não chega meu Rei [enquanto ele vem ou não] Assim chego mais perto do meu futuro certo [o mesmo de todo e qualquer irmão] Mas enquanto isso não ocorre o lúdico socorre-me, carrega-me pela mão... [Acalenta-me em seu braços fortes de ilusão]. |
| Dolorosa é a volúpia da minha rosa ansiosa por ter-te em vigor, em verso e em prosa Dolorosa é ânsia de saciar o louco desejo que tenho quando em letras imagino, vejo. Vejo-te postar-te em solitária, carcerária, cadeira expectante, extasiado, na ânsia, torcendo em crença nu, vendado, preso, atado com seda suave e verdadeira inalando o meu odor exalado que anuncia potentosa presença. Ouvindo... apenas ouvindo, à pele o tato singindo cego sem poder enxergar, obliterado, olfando exaurindo pouca sanidade, delírio louco emergindo. imobilizado, sem poder apalpar, alucina ansiando. Absorvendo meu corpo, o exalar, arauto anunciando ouvindo em passo distante o aproximar, esgueirando provocando um leve roçar quente, o corpo queimando minha pele escalda a boca à recusa, eu negando. Dou-te um pouco, só para provar, de meu peito vejo-te louco a sugar voraz sovendo, ardendo floresce minha rosa, mas não deixo colher, receio ficas ereto, louco, animado, insano, querendo. Então fauno irado, descontrolado, soltas-te inteiro apenas vendado, pegas meu corpo, brutal entropia. Teu músculo doloroso parte-me, penetra-me ao meio pegas-me de frente, entrego-me gemente, sacia... Cegas-me de tanto desejo, fecho os olhos não vejo sento-me á tua cela, desfraldo minha vela, louca puxas-me forte, vertigem, tiras-me o norte, arquejo beijo-te insana, aflita e humana, calo à boca. Desliso minha mão sequiosa em tuas costas, sedosa cravo minhas garras em tua pele, machuco, não fere pegas-me pelas as ancas mostras-me força vigorosa És meu único dono, soberano senhor, que prazer confere. Entrego-me à tua vontade, súplica incoerente, és meu dono, és amante, és poeta de desejo amoral eu sou tua, sou musa, mulher confusa, florescente és saciedade profusa de meu desejo vão e carnal. És meu suplício, meu amor em letras imortal meu desejo, calor onde evaporo meu corpo banal Desejo saciado, com muso imaginado, imaterial Meu gozo versado, sentido, pulsado, nascido ao natural... |