Sinto que o encanto do belo fauno afasta,
o homem que tanto amo, que fácil inflamo,
agasta-me, (quase pressinto uma aura casta).
Choro triste, um sentimento imenso, desumano
Sento à espera numa fria luz que desespera,
o frio cresce, emudece e entristece a alma,
Que faço? Se em letras gasto toda uma era,
Que passo? Tropeço, percalço de mi'nhalma.
Sei que não sou musa apenas imagem de papel,
para ti sempre de blusa, difusa, fractada e irreal,
queria ser profusa boca vertendo versos e mel,
queria ser mulher simplesmente fêmea banal.
Mas não sou nada, nem musa, nem apaixonada,
nem luz, nem sol, nem soneto,nem corpo nu no lençol,
sou imaginada, fria estrofe esquecida, usada,
sou apenas um palavra mal escrita, mal rimada.
Queria ser gente, exalar pungente quente odor,
queria para ti ser uma bela e rara saborosa rosa,
queria dar-te meu copo inteiro com terno amor
outorgar-te minha alma feliz, forte e formosa.
Mas sou letras, esquecidas, tristes, apagadas,
pequenos, tortos e mortos, versos mal rimados,
sou espúrias tristes histórias alhures, mal fadadas,
sou épico insano de poemas loucos, mal-acabados,
Sinto-me triste, humana, ferida, só, esquecida,
sentia-me musa, amada, feliz, flamante, desejada,
hoje sinto-me intrusa, confusa, infame e desvalida,
Será que ainda vivo, ou foge-me simplesmente a vida?
Devia ter uma lei, divina, severa e universal
"Quem fosse só, ímpar, deveria ser feliz!"
Cumprida, rígida, à risca com pena cruel, fatal
em Portugal, Espanha, Brasil, em qualquer país.
Mas não há lei coibindo a tristeza, bem sei,
só, triste, tornei-me, culta e amarga mulher,
um rainha incauta num reino de areia sem Rei,
Uma sábia velha e louca que come versos de colher.